
Surge uma onda a serpentear pelo desenho. Parece uma seta que atravessou o coração. Na próxima onda talvez o coração se desfaça em lágrimas. A maré está a subir ou a descer? Procuro perceber as ondas e as marés, e ver se ainda percebo o meu coração. Procuro sinais mínimos. Agora aproveitei um pouco da curva que restou do coração na areia, e faço um círculo. É um o minúsculo. Ponho-lhe um tracinho pequenino e fica um a manuscrito à beira-mar, na areia fina da praia lusitana. Pequenos detalhes que fazem a diferença. E que diferença! Escrevo na areia: amo-te. Não consigo concluir: a onda vem e desfaz. Refaço o amor e agora escrevo rápido como se fosse um estenógrafo. Pareço um adolescente apaixonado com o seu ideolecto entre pessoas tão diversas e de tantas proveniências sociais que os sociolectos espumam. Ela não vai ler a minha mensagem que escrevi na areia. A maré sobe e vai apagar o amor. Podia ter desenhado um coração na rocha e punha-lhe uma seta. Vestia-o de Cupido e por baixo do sinal pictográfico, redundante, escreveria: amo-te Teresa. Vou antes enviar-lhe um SMS. Abrevio a escrita. Pode ser mais difícil ler a mensagem, percebendo-a, do que escrevê-la. Sou da geração do HOMO DIGITALIS. Digito. Escrevo. Digo à Teresa K. a amo e que tb. penso nela à beira mar. Sei que sou correspondido. Ela está longe, mas temos trocado cartas de amor num português tão perfeito que parece florir como um amor: um amor-perfeito. Um amor eterno, como a escrita perfeita, num presente de norma linguística. Ao telemóvel, nas nossas mensagens, abreviamos o amor. Eu quero estar com ela para um amor completo, duradouro e sem desassossego. Por inteiro. Escreverei no seu corpo um poema completo. Nem as ondas, nem o tempo hão-de desfazer este poema, apenas aperfeiçoá-lo.
Sansão Coelho, Dr.
Maio,15
2009
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